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sexta-feira, 5 de março de 2010

Deus detrás do arame farpado

Como um soldado nazista encontrou esperança após se tornar teólogo.

Em recente visita à Virgínia, encontrei Jürgen Moltmann, um de meus heróis. Mergulhei em cerca de uma dúzia de livros dele e, para minha surpresa, o teólogo alemão, pessoalmente, transpira charme e senso de humor, os quais não são bem representados em suas obras acadêmicas.

Moltmann planejava uma carreira em física quântica até que, aos 18 anos, no apogeu da Segunda Guerra Mundial, foi convocado. Designado para as baterias antiaéreas, em Hamburgo, viu compatriotas incinerados por bombas lançadas sobre a cidade. Uma pergunta o assombrou: “Por que eu sobrevivi?”.

Após render-se para os britânicos, o jovem soldado passou os três anos seguintes em campos de prisioneiros na Bélgica, Escócia e Inglaterra. Quando o império de Hitler implodiu, expondo a podridão que havia no cerne do Terceiro Reich, Moltmann viu como os outros prisioneiros alemães “desmoronaram internamente, como abandonaram toda esperança, e ficaram doentes, e alguns, em conseqüência disso, chegaram até a morrer”. Quando ele conheceu a verdade sobre os nazistas, sentiu incomensurável pesar em relação à vida, “pesaroso sob o fardo daquela carga sombria da culpa que nunca poderia ser paga”.

Moltmann não tinha formação cristã. Ele levou dois livros consigo para a batalha — poemas de Goethe e obras de Nietzsche —, nenhum destes estimulava muito a esperança. Mas um capelão estado-unidense deu-lhe uma cópia do Novo Testamento e do livro de Salmos, uma edição do exército, autografada pelo presidente Roosevelt, em que o prisioneiro leu: “se eu fizer a minha cama na sepultura, também lá estás” (Sl 139.8). Será que Deus poderia estar presente ali naquele lugar sombrio? Enquanto lia, Moltmann encontrou palavras que capturavam perfeitamente seu sentimento de desolação. Ele convenceu-se de que Deus “estava presente mesmo detrás do arame farpado — não, na verdade, principalmente detrás do arame farpado”.

Moltmann também encontrou algo novo no livro de Salmos: esperança. À noite, ao andar ao longo do perímetro da cerca de arame farpado para se exercitar, ele circundava uma pequena colina no centro do campo, onde havia uma barraca, usada como capela. Essa barraca tornou-se, para ele, um símbolo da presença de Deus no meio do sofrimento.

Mais tarde, Moltmann foi transferido para o Campo Norton, um campo educacional na Inglaterra, dirigido pela ACM (Associação Cristã de Moços). A população local recebeu bem os prisioneiros alemães: traziam-lhes comida caseira, ensinavam a doutrina cristã e nunca acrescentavam peso ao sentimento de culpa que tinham por causa das atrocidades nazistas. (Ao ouvir as ternas lembranças de Moltmann daqueles dias — “Eles me tratavam melhor que o exército alemão!” —, não pude deixar de contrastá-las com a baía de Guantánamo e Abu Ghraib, locais em que semeamos o ódio que produzirá, por gerações, frutos amargos).

Moltmann, após sua libertação, começou a elaborar sua teologia da esperança. Existimos em estado de contradição, entre a cruz e a ressurreição. Embora rodeados pela decadência, temos, todavia, esperança de restauração, uma esperança iluminada pelo brilho prévio da ressurreição de Cristo. A fé nesse futuro glorioso pode transformar o presente — exatamente como a esperança do próprio Moltmann de, um dia, ser libertado do campo de prisioneiros transformou sua experiência diária ali.

Moltmann, do começo ao fim de sua densa obra teológica, trata de dois temas: a presença de Deus conosco durante nosso sofrimento e a promessa de um futuro perfeito. Moltmann citou que se Jesus tivesse vivido na Europa, durante o Terceiro Reich, teria sido estigmatizado como outros judeus e enviado para a câmara de gás. Moltmann, em seu livro The Crucified God [O Deus crucificado], explica que em Jesus temos a prova definitiva de que Deus sofre conosco. (Durante a guerra de El Salvador, alguém mandou para Moltmann uma fotografia de um dos seis jesuítas mortos por um pelotão de fuzilamento e, ao lado do corpo, em uma poça de sangue, estava à edição espanhola de O Deus crucificado).

Jesus, ao mesmo tempo, faz-nos saborear esse tempo futuro, quando a terra será restaurada ao desenho original de Deus. A Páscoa é o começo do “riso do redimido... o protesto de Deus contra a morte”. Uma pessoa sem fé pode pressupor, a partir do sofrimento neste planeta, que Deus não é nem todo-bom nem todo-poderoso. A fé nos permite acreditar que Deus também não está satisfeito com este mundo e pretende fazer novas todas as coisas.

Apenas na segunda vinda de Cristo, o Reino de Deus se formará em toda sua plenitude. Nesse meio tempo, fundamos povoados daquele Reino, seguindo sempre o exemplo dos evangelhos. Moltmann observa que, no Antigo Testamento, a frase “Dia do SENHOR” inspirava temor, mas no Novo Testamento, ela traz esperança, pois os autores conheceram e confiaram no Senhor à quem esse dia pertence.

Jürgen Moltmann, em uma única sentença, expressa a importante distância entre a Sexta-Feira Santa e Páscoa. Na verdade, isso é um sumário da história humana, passado, presente e futuro: “Deus chora conosco para que, um dia, possamos rir com ele”.

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